Grupo de humanização hospitalar voltado para a 3ª idade, que atua no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O humor aproxima as pessoas


A genética é implacável. Meu pai é míope e calvo, e eu não poderia ficar atrás. Meu pai também tem uma queda pelo humor, sempre tem uma brincadeirinha na ponta da língua para quase tudo, e isso eu agradeço por ter herdado dele, seja pela genética ou pela educação que recebi dele e de minha mãe.  Hoje eu agradeço ainda mais por ter esse lado humorístico dele.

Mais uma quarta-feira, mais uma visita no Felizidade. Chegamos ao quinto e andar e para nossa (agradável) surpresa, sobram visitantes, faltam pacientes. Eis a oportunidade batendo à nossa porta. Semanas atrás as enfermeiras da ala da oncologia nos pediram para visitar os outros quartos. Por que não? Fomos até a oncologia e nos dividimos: parte para o quarto a esquerda, parte para a direita. No meio do caminho para o quarto da direita recebo um pedido: “Mila, estão chamando um carequinha aqui nesse quarto.” Como diabos sabem que sou careca se nem me viram ainda!? Foi a primeira coisa que pensei.

Chego no quarto e sou recebido por olhos azuis sorridentes: “Oi, não lembra de mim não? A Eliana?” Claro que lembrava, conversamos muito no quarto da geriatria, há meses não a via. Só então salto dos olhos para o rosto e para o topo da cabeça: seus cabelos louros haviam desaparecido, apenas alguns fios fracos e eriçados foram poupados pela quimioterapia.  Ela brinca: “Viu Mila, estou carequinha que nem você.” Que diabos eu poderia dizer? Uma situação dessas? Uma agressão dessas para a autoestima feminina? Perder os cabelos?

“Ah, mas você ainda tem mais cabelo do que eu. – digo tirando o chapéu – Tem que raspar muito pra ficar igual.”. Foi o melhor que consegui improvisar. Descubro em seguida que Eliana fazia aniversário. Muitas coincidências para apenas mais um dia.

Ouvi a análise de uma psiquiatra sobre mim: você é solitário, usa o humor para aproximar as pessoas. Se é a solidão, não sei. Prefiro pensar que a culpa é de quem me criou. Quem sabe um dia provem que tudo está no DNA. Só digo uma coisa com certeza: o humor, realmente, aproxima as pessoas.