Grupo de humanização hospitalar voltado para a 3ª idade, que atua no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Quero-Quero

Quero todo o sentimento
Quero o choro e o riso
Quero ficar de mãos dadas
Quero tudo aquilo de mais humano e singelo
Que emana do seu ser.

Quero tudo aquilo que brota do seu íntimo
Quero tudo aquilo que você esconde
Quero todo o oculto que te revela
Quero seu último frescor de vida
Que me sussurra sobre você.

Quero a saudade
Quero a certeza de que tudo valeu a pena
Quero um amigo de verdade
Quero a calma da maré ao tocar as pedras,
Que resoluta, nunca se entrega.

E de tanto querer bem
Percebi que o Amor é doar
Que as trocas são espontâneas
Para aquele que sabe dar
Quero – Quero, Feliz, sempre há de voar.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Uma noite sem sono...


Há 3 anos atrás, quando entrei na faculdade, não fazia idéia do quanto minha vida, pensamentos e valores iriam mudar... E do quanto a doença e a morte iriam pesar sobre mim...

Ah, sim, no passado eu acreditava que iria me acostumar a ver doentes e mortes. Mas não: quanto mais a gente se envolve com uma criança doente, mais a gente lamenta pela doença dela; quanto mais a gente aprende sobre a doença daquele senhor, mais a gente percebe a gravidade do problema e se entristece pela morte sofrida que se aproxima dele...

Não se engane se eu não demonstrar sentimentos nesses casos: para mim o peso se tornou tão grande que mal consigo liberá-lo em um rosto triste, cabeça para baixo ou lágrimas... Acabo guardando tudo comigo, tentando dizer "preciso seguir em frente"... Mas dentro de mim, onde se escondem os sentimentos, há choro, grito, desespero; uma noite sem sono, perguntas do porquê das coisas do mundo... E esta noite está sendo mais uma dessas...

Seu nome era Francisco. Eu o conheci quando eu ainda usava a boina e fui fazer uma visita na pediatria a convite de uma amiga, para desenhar com os pacientes pequeninos. Nunca havia entrado em uma enfermaria do HC antes; foi um choque ver um menino carregando um suporte, no qual estava pendurado uma bolsa ligada a um canudo enfiado no pescoço! (hoje, é natural eu lidar com pacientes recebendo alimentação parenteral por acesso central). Conversei com Francisco, jogamos videogame e assistimos ao jogo do Corinthians... ele perguntou se eu iria voltar, e eu disse que sim... Hoje sei que nunca devo fazer promessas que não vou cumprir...

Todavia, reencontrei Francisco 2 anos depois, na aula de semiologia. Ele já estava mais velho e mais abatido, e agora eu auscultava seu abdome, e ouvia a professora dizer que Francisco apresentava síndrome do intestino curto e por isso necessitava de nutrição especial (e como ele não conseguia receber os cuidados em casa, acabou virando "morador" do HC). Seu sonho: conhecer os Estados Unidos. Sua realidade: uma vida morando no hospital, envolto em agulhas e dores. Uma infância privada de brincadeiras, futebol e escola, uma adolescência sem namoros e sem viagens... Hoje fiquei sabendo que ele partiu, partiu dos problemas desse mundo... O que Francisco poderia ter sido?

Às vezes procuro repouso em uma crença. Uma crença simplista de que passamos por dificuldades na vida porque precisamos disto para evoluir, e a cada vida que vivemos buscamos uma experiência diferente que nos acrescente de alguma forma. Contudo, sempre me vem a Dúvida: será que o mundo é justo? Revolto-me ao ver pessoas maldosas estarem sempre vencendo e rindo, enquanto uma criança paga as contas da dor, uma conta que não havia motivo de ser dela porque ela não fez por merecer. Tudo bem, o mundo é complexo, mas sou teimoso e continuarei a pensar sobre isso tudo... Meus amigos dizem que sou ateu, mas não acho: ao contrário, creio tanto em Deus que, em meus pensamentos, brigo com ele por essas injustiças. Talvez seja esta a minha forma de liberar minhas tristezas...

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O humor aproxima as pessoas


A genética é implacável. Meu pai é míope e calvo, e eu não poderia ficar atrás. Meu pai também tem uma queda pelo humor, sempre tem uma brincadeirinha na ponta da língua para quase tudo, e isso eu agradeço por ter herdado dele, seja pela genética ou pela educação que recebi dele e de minha mãe.  Hoje eu agradeço ainda mais por ter esse lado humorístico dele.

Mais uma quarta-feira, mais uma visita no Felizidade. Chegamos ao quinto e andar e para nossa (agradável) surpresa, sobram visitantes, faltam pacientes. Eis a oportunidade batendo à nossa porta. Semanas atrás as enfermeiras da ala da oncologia nos pediram para visitar os outros quartos. Por que não? Fomos até a oncologia e nos dividimos: parte para o quarto a esquerda, parte para a direita. No meio do caminho para o quarto da direita recebo um pedido: “Mila, estão chamando um carequinha aqui nesse quarto.” Como diabos sabem que sou careca se nem me viram ainda!? Foi a primeira coisa que pensei.

Chego no quarto e sou recebido por olhos azuis sorridentes: “Oi, não lembra de mim não? A Eliana?” Claro que lembrava, conversamos muito no quarto da geriatria, há meses não a via. Só então salto dos olhos para o rosto e para o topo da cabeça: seus cabelos louros haviam desaparecido, apenas alguns fios fracos e eriçados foram poupados pela quimioterapia.  Ela brinca: “Viu Mila, estou carequinha que nem você.” Que diabos eu poderia dizer? Uma situação dessas? Uma agressão dessas para a autoestima feminina? Perder os cabelos?

“Ah, mas você ainda tem mais cabelo do que eu. – digo tirando o chapéu – Tem que raspar muito pra ficar igual.”. Foi o melhor que consegui improvisar. Descubro em seguida que Eliana fazia aniversário. Muitas coincidências para apenas mais um dia.

Ouvi a análise de uma psiquiatra sobre mim: você é solitário, usa o humor para aproximar as pessoas. Se é a solidão, não sei. Prefiro pensar que a culpa é de quem me criou. Quem sabe um dia provem que tudo está no DNA. Só digo uma coisa com certeza: o humor, realmente, aproxima as pessoas.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Sr Borboleta


Ontem, tive uma conversa com um Sr de 90 anos. Melhor: um Sr de 90 anos se deu ao trabalho de conversar comigo. E que ironia. O primeiro passo, me enganar: ah, sim, sim, vou fazer uma boa ação, ele vai se sentir feliz. Oi, qual o nome do Sr? Não posso escutar seu nome, o Sr quase não tem voz. Mas ele se esforça, ele sorri e diz algum nome sussurrado. José? João? Astrogildo? Eu realmente não sei, e ele realmente queria que eu soubesse. Eu sinto. E sinto muito, não sei o que fazer. Vou falar de mim, falar da vida, assim ele fica feliz. Mas espera: ele está tentando. Ele quer falar. Mas como? O Sr não tem voz, o que tá fazendo? E o que eu faço agora?

Espera: ELE quer falar. E ele não tem voz. Escuto minha voz há algumas visitas, escuto quando canto no chuveiro, escuto quando reclamo da chuva e da falta dela. Tenho escutado demais. Por que sou eu que tenho voz aqui? Caramba. Fala logo, Sr Bonifácio, eu preciso aprender a escutar, antes que seja tarde demais. Se o Sr sussurrar, vou fingir que entendi. Quem sabe assim a gente não se comunica de algum jeito especial com o tempo?

Sinceramente, não entendi quase metade do que ele falou. Mas o sorriso dele quando eu disse que tinha que ir embora, e um sussurro que consegui decifrar: “amanhã”... Amanhã, Sr Francisco? Talvez, eu tenho aula. Vou tentar. Mas tenho prova. Mas vou tentar. Mas tem chovido, e não tenho carro, sabe? O quê, o Sr sussurrou mais alguma coisa?

“Deus sabe o que faz”. Ele tinha dito isso no meio da conversa. “Quando eu melhorar a gente vai conversar”. Essa frase foi difícil entender, mas quando repeti ele confirmou que era isso mesmo. E uma das mais ditas: “mas eu te entendo, eu te escuto”. Ele repetia quando eu dizia que, se fosse ruim pra ele conversar daquele jeito, eu podia ir embora. Caramba, por que fui repetir isso tanto? Ele me escutava... E por que agora essas frases ficam passando pela minha cabeça?

Receptores do tipo alfa ou beta? Tô confundindo, o que a dopamina tem a ver? Revisar, e lembrar de ligar pra confirmar a palestra da Liga. E lembrar que um Sr de 90 anos quer conversar comigo quando melhorar do problema (câncer?) que não o deixa falar. Ele nunca fumou. Falando nisso, a nicotina age em receptores de acetilcolina, e eu podia passar lá pra vê-lo. 17h10, se eu correr ainda consigo estudar mais tarde. Ops, errei o quarto, é o masculino, claro.

Aqui, a cama da esquerda, ainda sem placa. Um Sr e uma Sra sentados à beira do leito, com os olhos marejados. Por quê...? Ai, meu Deus, por favor, não. Por favor, por favor, por favor. E eu olho para a cama... Ali está, o Sr Sem-Nome da Silva. Acordado, me vê e sorri. Eu digo: “oiê! Vim só pra falar um oi mesmo, eu disse que talvez voltasse, né?”. Silêncio. Talvez ele tenha sussurrado algo. “Bem, me desculpem, só passei rápido mesmo, fiquem à vontade”. Que idiota, por que eu quis tanto vir aqui? Vou embora logo, tá chovendo.

No ônibus, uma conversa com um amigo. Falamos sobre o clima, relacionamentos, vida, morte, e o senhorzinho que não me sai da cabeça. “Às vezes fazemos algo e não temos idéia de como aquilo vai afetar as outras pessoas. Efeito Borboleta, sabe?”. Amigo, você também tem 90 anos? É isso. O Sr Borboleta criou o tufão dentro de mim, com o simples bater das asas de sua não-voz. Quem sabe amanhã eu não dê uma passada por lá e saia com uma leve brisa na alma?

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Tanatologia

Lidar com a morte nunca é fácil. Em algumas sociedades, especialmente no Oriente, as pessoas procuram lidar com isso de forma aberta e natural: tudo que tem início um dia tem fim. Mas no Ocidente, onde a juventude e a imortalidade são os grandes desejos, falar da morte é um tabu.

Um exemplo é minha mãe, que está chegando aos 70 anos e tem problemas no coração. Vira-e-mexe ela vem me dizer "ah, quero ver sua formatura, dançar valsa com você, e daí eu morro em paz, meu filho, pode ser até na semana seguinte"... É óbvio para mim que minha mãe um dia vai morrer, mas ouvi-la falar disso me dá arrepios...

No Felizidade, uma coisa que eu sempre me questionava era como eu iria reagir quando algum paciente ou acompanhante começasse a falar da morte... e fui colocado à prova alguns meses após ter entrado no grupo.

Era uma senhora que estava muito mal, sedada e respirando fracamente. Fiquei a visita toda ao lado, fazendo carinho e preces para ela. Perto do fim da visita, a filha veio visitá-la. Conversei um pouco com ela, e depois ficamos um tempo em silêncio, até que ela suspirou fundo, virou para mim e disse:
"Minha mãe morava comigo antes de vir pra cá. Era difícil cuidar dela, mas tenho certeza que foi muito mais difícil para ela cuidar de mim e dos meus irmãos. Por isso eu cuidei dela nesses anos com muita dedicação. Foi muito bom ter ela lá em casa. Mas ela não vai voltar."
"Ela vai morar aonde agora?"
"Em lugar nenhum. Ela não vai mais voltar. Mesmo que os médicos me falem que ela vai melhorar, eu sei que ela não vai. Ela sentava sempre na mesma cadeira durante o jantar. Agora eu vou olhar aquela cadeira e minha mãe não vai estar mais lá. Ela sempre me pedia para ir ver o jardim do quintal. Agora não vou mais mostrar o jardim para minha mãe. Eu sempre fazia um mingau para ela. Agora eu não vou mais fazer mingau para minha mãe. Mas foi bom ter você comigo, mãe." E a moça sorria e acariciava as mãos da mãe deitada no leito... Eu senti uma paz imensa, e me percebi emocionado com a naturalidade da filha ao sentir que era hora de sua mãe partir...
"É a lei da natureza. Eu achava que não iria amar minha mãe mais do que já amava, mas agora a amo ainda mais, por causa da saudade, porque nada vai voltar."

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Quando crenças vão de encontro com a ciência: a minha ultima (e mais dificil) visita...

Era a quarta vez consecutiva que eu visitava dona Maria e seu Pedro.

Foi difícil acompanhar a transição da dona Maria: estava muito animada na primeira visita, mas ia ficando cada vez mais doente, e na quarta visita ela já sequer conseguia falar comigo... estava cada vez mais magra, cada vez com mais dor, cada vez mais triste...
Seu Pedro, senhor alegre, cheio de causos paulistanos, no começo resistia e não se abatia com a piora de sua esposa, mas naquela quarta visita notei a tristeza surgir nele.

Senti que não era hora de risadas... fui ao lado de dona Maria, estiquei minhas mãos, meditei e fiz uma prece... uma prece que me fez suar...
"Você tava usando as mãos pra mandar energia boa para minha esposa?"
"Você acredita ser possível fazer isso, seu Pedro?"
"Ahh já vi muita gente que tem poder e conseguia fazer isso, igualzinho Chico Xavier fazia... Você tava enviando pra ela, pra curar ela, não é?"
"Não, seu Pedro, eu não tenho esse poder, e se tenho não sei usar... a gente vem aqui para trazer um pouquinho de energia para vocês, seja com as mãos, seja com conversas... não posso ajudá-los mais do que nisso..."

E seu Pedro começou a falar de suas crenças, que achava interessante as religiões orientais, e que acreditava muito no Espiritismo... falamos de fé, crenças, missões na vida, evolução... nunca tive uma conversa como aquela no FI...

E nunca houve nada que me desconcertou tanto quanto o momento seguinte, quando seu Pedro desabafou pra mim que, apesar de gostar dos médicos e enfermeiros, não achava que aquilo tudo iria adiantar, uma vez que sua esposa só piorava. E me disse que estava quase decidido a tirá-la dali e levá-la para um centro espírita...
Aquilo me preocupou. Em assuntos de religião e ciência, eu sempre acreditei que elas tem que caminhar juntas... mas nem sempre isso ocorre. Já conheci naquele quinto andar um paciente testemunha de Jeová que resistia ao único tratamento disponível, um transplante cardíaco, porque não aceitava transfusão sanguínea (mas felizmente, existem meios para se fazer esse transplante sem a transfusão de sangue, embora seja mais complexo, arriscado e caro).

Pensar em abandonar todo um acompanhamento no HC para ser tratado em um centro espírita... poxa, aquilo me desabou... Eu já visitei um centro espírita grande em Santa Rita, e confesso que senti muita coisa e ouvi muitas histórias de curas... mas não cabia na minha mente racional ser correto deixar um tratamento hospitalar, baseado em condutas científicas, mesmo que essa fosse a vontade de seu Pedro... eu estudo Medicina, e minha fé é na Ciência...

Acabei dizendo a seu Pedro para ter fé e continuar confiando no tratamento no HC, que os profissionais estavam fazendo o melhor possível por dona Maria... ele concordou, sentou e suspirou...
Talvez eu pudesse levar um médium espírita para ver dona Maria e tranquilizar seu Pedro... Não vi mais os dois, mas tive notícias de que dona Maria melhorou e eles foram para casa...

Foi a visita mais difícil, e naquele momento decidi que seria a minha última visita oficial no grupo...

E, no futuro, quando as crenças do paciente irem de encontro com a ciência, como eu irei agir?

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O que você vai contar pros seus netos?

No futuro, vou contar aos meus netos histórias de um grupo Felizidoso... Um grupo de trens da onze e xotes das meninas com Barbas de violão e Xaradas de violino e Babás e Alfinetes de vozes lindas, com Macgyvers e Milanesas que contagiam, Sertões de causos filosóficos de pescaria, Farturas e Guaxus de jeitinho calminho, Mellões que fazem arrepiar ao se doarem de coração a cada avó, Annas e Brincos que se entregam nas visitas, Pinicos e alegres bexigas de bichinhos, Cidinhas de valiosos ensinamentos, Pierres com reflexões maduras e sensatas, Brejas e Vestidos e Nhonhos e Bambis e Metris que ganham confiança dos pacientes do quarto masculino, Salsichas de bondade grandessíssima, Popis que resistem em pé ao lado dos que mais precisam, Doçuras e Lolys com jeito leve de meninas ao perguntarem e puxarem assuntos, Majus e Pufzs e Dehs que tocam a galera e trazem presentes, Marras e Mocreias e suas maneiras de enxergar o lado dos pacientes, Tomazinis de observações lúcidas, Mazens e Paulãos e seus carinhos com cada senhora, Açaís e Alegrias e Porcas e La Niñas que puxam conversa fácil com os velhinhos, Doms e ESCs e Devassas e Espetos com suas maturidades nos quartos, Littles e X-liders e com conversas alto-astrais que me alegram... e CPMs que aprendem o quanto somos pequenos nesse mundo, mas grandes quando temos pessoas de valores ao nosso lado!

domingo, 18 de setembro de 2011

Dona Elisa

Eu era novo ainda no Felizidade quando tive essa visita que me marcou para sempre. Entrei no quarto feminino, olhei para a primeira cama à direita e vi uma senhora, ainda com alguns fios loiros, segurando uma máscara de ventilação e com a aparência profundamente abatida... como se um dementador tivesse passado ali e sugado toda a felicidade... Olhei ao pé da cama: sem isolamento, nome Elisa. Qual o seu nome? Meu nome é Elisa, respondeu bem fraquinha... Quer conversar um pouquinho? Ah não (e ela balançava a cabeça negativamente).
Normalmente, em situações assim eu diria Ah, ok, pode descansar então, e melhoras... Mas sei lá porque céus eu dei uma de palhaço-joão-sem-braço e comecei a falar alto e sorrindo para dona Elisa Ahhh mas por que não quer conversar? conversar é tão bom, eu por exemplo adoro conversar, porque sou muito curioso, meu nome é Dú, e bla bla bla... fui falando alegre e olhando nos olhos dela. E dona Elisa por fim tirou a máscara e respondeu Eu fui professora. Professora, que legal! Professora de que? De Português. Portugues?! nossa, eu não gosto de português, é pior que matetrágica, todos aqueles verbos, aquelas regras, e aquelas regências, nunca entendi essas regras... mas gosto muito de literatura, ahh Camões, Machado, Guimarães Rosa!! O burrinho pedrês ensinando que você não deve nadar contra a corrente, que a vida te leva até a margem do rio... E dona Elisa se animou, e ela começou a falar da escola, dos alunos brilhantes e dos malvados que ela tinha, dos grandes poetas, das histórias, me ensinava regras gramaticais, falava sobre a lingua do povo e a norma culta... Eu sentia como se ela tivesse me dando aula, e de repente notei que surgia ali uma felicidade que crescia muito rápido. E eu apresentava pra ela o Popis, o Salsicha, o Xarada, o Sertão, e dizendo Ahh estes sim adoram gramática, e dona Elisa ficava toda feliz e começava a falar sobre a 2a guerra com Salsicha, sobre autores modernos com Sertão, sobre música clássica com Xarada... aquele papo cult que eu só entrava para fazer piada... e no final dona Elisa me agradeceu, pediu um abraço - e foi um abraço inesquecível! E o final daquela visita chegou, e tudo passou tão rapido e confuso como esse texto. E ali eu conhecia uma jovem Elisa, cheia de vida, e que fazia brotar felicidade aos montes...

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Fórmula mágica

Achei engraçado quando uns calouros vieram a mim perguntando "o que eu faço quando um paciente não fala?", "e quando um paciente não consegue falar, mas tem vontade de falar?"
É engraçado porque eu fiz essas mesmas perguntas aos meus veteranos há um ano atrás, e só agora descobria algo óbvio: não existe resposta única. Porque cada situação é única: tem paciente que não quer falar mas depois fala muito e gosta de você, tem paciente com dificuldades para falar e que prefere ouvir você, tem paciente que tenta-falar-não-consegue-se-irrita-e-nisso-lá-se-vai-sua-boa-intenção, tem paciente que se agrada apenas com a presença de um moleque colorido ao lado, e tem paciente que prefere ficar sozinho! Como você vai descobrir o que fazer em cada momento? Não é algo diagramado ou com fórmulas do tipo "se ele fizer A, você faz Y, mas se ele fizer B, você faz Z". Ainda bem...
Por isso comunicar-se com o paciente é uma arte. E como toda arte, tem pessoas com dom, e tem pessoas que ficam boas ao praticarem com vontade e boa intenção. É uma técnica que a gente vai desenvolvendo a cada visita. Você aprende a identificar, a sentir cada situação, e vai sabendo como agir melhor...
São Amoras que contam histórias para entreter um paciente com dificuldades de falar, Maffofos que se comunicam com o paciente gesticulando com a cabeça ou com as mãos em "sim" ou "não", Mellões que acariciam e dizem palavras de conforto para acalmar um paciente debilitado, Sabões que fazem mágicas que falam mais do que palavras...
Cada um cria sua arte, contribuindo para a infinita arte de se comunicar...

A primeira visita

Lembro-me como se fosse ontem a minha primeira visita no Feliz, na minha seleção. O Dalsin (57) me acompanhava - na verdade ele estava me avaliando, mas eu nem notei isso. No quarto feminino, estava conversando com uma senhora, perguntando da vida dela... conversa fácil, ela parecia bem, e logo já estaria em casa de novo.
Mas não sei, sempre fico olhando ao redor (por mais que isso me desse alguns pontos negativos, por parecer falta de foco no paciente); mas afinal hospital é hospital né, você tem que tomar todo o cuidado para não atrapalhar a rotina e o trabalho do pessoal. Foi quando vi, na cama ao lado, uma senhora grande, do tipo "italianona" (como diria meu pai)... estava lá sozinha, em uma situação muito difícil. Larguei meu veterano e fui até ela... olhei o nome na cama: "Aparecida". Não tive coragem de chamá-la... ela estava com uma sonda nasogástrica, dormindo, e estava muito mal... foi um choque para um calouro no hospital. Apenas fiquei ao lado, prestando atenção nela.
Foi quando o Sertão apareceu ao meu lado, e acariciou ela, e chamou o nome dela - e ela respondia fracamente com um pequeno abrir de olhos, mostrando que estava ali e estava ouvindo. Me senti mais à vontade, e meditei pensando em como teria sido a vida de dona Aparecida. O Sertão, ao meu lado, sorria (algo basal dele), e entregava toda sua atenção a ela...
Essa foi minha primeira visita no Feliz... percebi ali que descobriria muita coisa com o grupo, ouvindo os pacientes e aprendendo com meus amigos!