Grupo de humanização hospitalar voltado para a 3ª idade, que atua no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Quando crenças vão de encontro com a ciência: a minha ultima (e mais dificil) visita...

Era a quarta vez consecutiva que eu visitava dona Maria e seu Pedro.

Foi difícil acompanhar a transição da dona Maria: estava muito animada na primeira visita, mas ia ficando cada vez mais doente, e na quarta visita ela já sequer conseguia falar comigo... estava cada vez mais magra, cada vez com mais dor, cada vez mais triste...
Seu Pedro, senhor alegre, cheio de causos paulistanos, no começo resistia e não se abatia com a piora de sua esposa, mas naquela quarta visita notei a tristeza surgir nele.

Senti que não era hora de risadas... fui ao lado de dona Maria, estiquei minhas mãos, meditei e fiz uma prece... uma prece que me fez suar...
"Você tava usando as mãos pra mandar energia boa para minha esposa?"
"Você acredita ser possível fazer isso, seu Pedro?"
"Ahh já vi muita gente que tem poder e conseguia fazer isso, igualzinho Chico Xavier fazia... Você tava enviando pra ela, pra curar ela, não é?"
"Não, seu Pedro, eu não tenho esse poder, e se tenho não sei usar... a gente vem aqui para trazer um pouquinho de energia para vocês, seja com as mãos, seja com conversas... não posso ajudá-los mais do que nisso..."

E seu Pedro começou a falar de suas crenças, que achava interessante as religiões orientais, e que acreditava muito no Espiritismo... falamos de fé, crenças, missões na vida, evolução... nunca tive uma conversa como aquela no FI...

E nunca houve nada que me desconcertou tanto quanto o momento seguinte, quando seu Pedro desabafou pra mim que, apesar de gostar dos médicos e enfermeiros, não achava que aquilo tudo iria adiantar, uma vez que sua esposa só piorava. E me disse que estava quase decidido a tirá-la dali e levá-la para um centro espírita...
Aquilo me preocupou. Em assuntos de religião e ciência, eu sempre acreditei que elas tem que caminhar juntas... mas nem sempre isso ocorre. Já conheci naquele quinto andar um paciente testemunha de Jeová que resistia ao único tratamento disponível, um transplante cardíaco, porque não aceitava transfusão sanguínea (mas felizmente, existem meios para se fazer esse transplante sem a transfusão de sangue, embora seja mais complexo, arriscado e caro).

Pensar em abandonar todo um acompanhamento no HC para ser tratado em um centro espírita... poxa, aquilo me desabou... Eu já visitei um centro espírita grande em Santa Rita, e confesso que senti muita coisa e ouvi muitas histórias de curas... mas não cabia na minha mente racional ser correto deixar um tratamento hospitalar, baseado em condutas científicas, mesmo que essa fosse a vontade de seu Pedro... eu estudo Medicina, e minha fé é na Ciência...

Acabei dizendo a seu Pedro para ter fé e continuar confiando no tratamento no HC, que os profissionais estavam fazendo o melhor possível por dona Maria... ele concordou, sentou e suspirou...
Talvez eu pudesse levar um médium espírita para ver dona Maria e tranquilizar seu Pedro... Não vi mais os dois, mas tive notícias de que dona Maria melhorou e eles foram para casa...

Foi a visita mais difícil, e naquele momento decidi que seria a minha última visita oficial no grupo...

E, no futuro, quando as crenças do paciente irem de encontro com a ciência, como eu irei agir?

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