Grupo de humanização hospitalar voltado para a 3ª idade, que atua no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Tanatologia

Lidar com a morte nunca é fácil. Em algumas sociedades, especialmente no Oriente, as pessoas procuram lidar com isso de forma aberta e natural: tudo que tem início um dia tem fim. Mas no Ocidente, onde a juventude e a imortalidade são os grandes desejos, falar da morte é um tabu.

Um exemplo é minha mãe, que está chegando aos 70 anos e tem problemas no coração. Vira-e-mexe ela vem me dizer "ah, quero ver sua formatura, dançar valsa com você, e daí eu morro em paz, meu filho, pode ser até na semana seguinte"... É óbvio para mim que minha mãe um dia vai morrer, mas ouvi-la falar disso me dá arrepios...

No Felizidade, uma coisa que eu sempre me questionava era como eu iria reagir quando algum paciente ou acompanhante começasse a falar da morte... e fui colocado à prova alguns meses após ter entrado no grupo.

Era uma senhora que estava muito mal, sedada e respirando fracamente. Fiquei a visita toda ao lado, fazendo carinho e preces para ela. Perto do fim da visita, a filha veio visitá-la. Conversei um pouco com ela, e depois ficamos um tempo em silêncio, até que ela suspirou fundo, virou para mim e disse:
"Minha mãe morava comigo antes de vir pra cá. Era difícil cuidar dela, mas tenho certeza que foi muito mais difícil para ela cuidar de mim e dos meus irmãos. Por isso eu cuidei dela nesses anos com muita dedicação. Foi muito bom ter ela lá em casa. Mas ela não vai voltar."
"Ela vai morar aonde agora?"
"Em lugar nenhum. Ela não vai mais voltar. Mesmo que os médicos me falem que ela vai melhorar, eu sei que ela não vai. Ela sentava sempre na mesma cadeira durante o jantar. Agora eu vou olhar aquela cadeira e minha mãe não vai estar mais lá. Ela sempre me pedia para ir ver o jardim do quintal. Agora não vou mais mostrar o jardim para minha mãe. Eu sempre fazia um mingau para ela. Agora eu não vou mais fazer mingau para minha mãe. Mas foi bom ter você comigo, mãe." E a moça sorria e acariciava as mãos da mãe deitada no leito... Eu senti uma paz imensa, e me percebi emocionado com a naturalidade da filha ao sentir que era hora de sua mãe partir...
"É a lei da natureza. Eu achava que não iria amar minha mãe mais do que já amava, mas agora a amo ainda mais, por causa da saudade, porque nada vai voltar."

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