Grupo de humanização hospitalar voltado para a 3ª idade, que atua no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP

domingo, 18 de setembro de 2011

Dona Elisa

Eu era novo ainda no Felizidade quando tive essa visita que me marcou para sempre. Entrei no quarto feminino, olhei para a primeira cama à direita e vi uma senhora, ainda com alguns fios loiros, segurando uma máscara de ventilação e com a aparência profundamente abatida... como se um dementador tivesse passado ali e sugado toda a felicidade... Olhei ao pé da cama: sem isolamento, nome Elisa. Qual o seu nome? Meu nome é Elisa, respondeu bem fraquinha... Quer conversar um pouquinho? Ah não (e ela balançava a cabeça negativamente).
Normalmente, em situações assim eu diria Ah, ok, pode descansar então, e melhoras... Mas sei lá porque céus eu dei uma de palhaço-joão-sem-braço e comecei a falar alto e sorrindo para dona Elisa Ahhh mas por que não quer conversar? conversar é tão bom, eu por exemplo adoro conversar, porque sou muito curioso, meu nome é Dú, e bla bla bla... fui falando alegre e olhando nos olhos dela. E dona Elisa por fim tirou a máscara e respondeu Eu fui professora. Professora, que legal! Professora de que? De Português. Portugues?! nossa, eu não gosto de português, é pior que matetrágica, todos aqueles verbos, aquelas regras, e aquelas regências, nunca entendi essas regras... mas gosto muito de literatura, ahh Camões, Machado, Guimarães Rosa!! O burrinho pedrês ensinando que você não deve nadar contra a corrente, que a vida te leva até a margem do rio... E dona Elisa se animou, e ela começou a falar da escola, dos alunos brilhantes e dos malvados que ela tinha, dos grandes poetas, das histórias, me ensinava regras gramaticais, falava sobre a lingua do povo e a norma culta... Eu sentia como se ela tivesse me dando aula, e de repente notei que surgia ali uma felicidade que crescia muito rápido. E eu apresentava pra ela o Popis, o Salsicha, o Xarada, o Sertão, e dizendo Ahh estes sim adoram gramática, e dona Elisa ficava toda feliz e começava a falar sobre a 2a guerra com Salsicha, sobre autores modernos com Sertão, sobre música clássica com Xarada... aquele papo cult que eu só entrava para fazer piada... e no final dona Elisa me agradeceu, pediu um abraço - e foi um abraço inesquecível! E o final daquela visita chegou, e tudo passou tão rapido e confuso como esse texto. E ali eu conhecia uma jovem Elisa, cheia de vida, e que fazia brotar felicidade aos montes...

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Fórmula mágica

Achei engraçado quando uns calouros vieram a mim perguntando "o que eu faço quando um paciente não fala?", "e quando um paciente não consegue falar, mas tem vontade de falar?"
É engraçado porque eu fiz essas mesmas perguntas aos meus veteranos há um ano atrás, e só agora descobria algo óbvio: não existe resposta única. Porque cada situação é única: tem paciente que não quer falar mas depois fala muito e gosta de você, tem paciente com dificuldades para falar e que prefere ouvir você, tem paciente que tenta-falar-não-consegue-se-irrita-e-nisso-lá-se-vai-sua-boa-intenção, tem paciente que se agrada apenas com a presença de um moleque colorido ao lado, e tem paciente que prefere ficar sozinho! Como você vai descobrir o que fazer em cada momento? Não é algo diagramado ou com fórmulas do tipo "se ele fizer A, você faz Y, mas se ele fizer B, você faz Z". Ainda bem...
Por isso comunicar-se com o paciente é uma arte. E como toda arte, tem pessoas com dom, e tem pessoas que ficam boas ao praticarem com vontade e boa intenção. É uma técnica que a gente vai desenvolvendo a cada visita. Você aprende a identificar, a sentir cada situação, e vai sabendo como agir melhor...
São Amoras que contam histórias para entreter um paciente com dificuldades de falar, Maffofos que se comunicam com o paciente gesticulando com a cabeça ou com as mãos em "sim" ou "não", Mellões que acariciam e dizem palavras de conforto para acalmar um paciente debilitado, Sabões que fazem mágicas que falam mais do que palavras...
Cada um cria sua arte, contribuindo para a infinita arte de se comunicar...

A primeira visita

Lembro-me como se fosse ontem a minha primeira visita no Feliz, na minha seleção. O Dalsin (57) me acompanhava - na verdade ele estava me avaliando, mas eu nem notei isso. No quarto feminino, estava conversando com uma senhora, perguntando da vida dela... conversa fácil, ela parecia bem, e logo já estaria em casa de novo.
Mas não sei, sempre fico olhando ao redor (por mais que isso me desse alguns pontos negativos, por parecer falta de foco no paciente); mas afinal hospital é hospital né, você tem que tomar todo o cuidado para não atrapalhar a rotina e o trabalho do pessoal. Foi quando vi, na cama ao lado, uma senhora grande, do tipo "italianona" (como diria meu pai)... estava lá sozinha, em uma situação muito difícil. Larguei meu veterano e fui até ela... olhei o nome na cama: "Aparecida". Não tive coragem de chamá-la... ela estava com uma sonda nasogástrica, dormindo, e estava muito mal... foi um choque para um calouro no hospital. Apenas fiquei ao lado, prestando atenção nela.
Foi quando o Sertão apareceu ao meu lado, e acariciou ela, e chamou o nome dela - e ela respondia fracamente com um pequeno abrir de olhos, mostrando que estava ali e estava ouvindo. Me senti mais à vontade, e meditei pensando em como teria sido a vida de dona Aparecida. O Sertão, ao meu lado, sorria (algo basal dele), e entregava toda sua atenção a ela...
Essa foi minha primeira visita no Feliz... percebi ali que descobriria muita coisa com o grupo, ouvindo os pacientes e aprendendo com meus amigos!