Ontem, tive uma conversa com um Sr de 90 anos. Melhor: um Sr
de 90 anos se deu ao trabalho de conversar comigo. E que ironia. O primeiro
passo, me enganar: ah, sim, sim, vou fazer uma boa ação, ele vai se sentir
feliz. Oi, qual o nome do Sr? Não posso escutar seu nome, o Sr quase não tem
voz. Mas ele se esforça, ele sorri e diz algum nome sussurrado. José? João?
Astrogildo? Eu realmente não sei, e ele realmente queria que eu soubesse. Eu
sinto. E sinto muito, não sei o que fazer. Vou falar de mim, falar da vida,
assim ele fica feliz. Mas espera: ele está tentando. Ele quer falar. Mas como?
O Sr não tem voz, o que tá fazendo? E o que eu faço agora?
Espera: ELE quer falar. E ele não tem voz. Escuto minha voz
há algumas visitas, escuto quando canto no chuveiro, escuto quando reclamo da
chuva e da falta dela. Tenho escutado demais. Por que sou eu que tenho voz
aqui? Caramba. Fala logo, Sr Bonifácio, eu preciso aprender a escutar, antes
que seja tarde demais. Se o Sr sussurrar, vou fingir que entendi. Quem sabe
assim a gente não se comunica de algum jeito especial com o tempo?
Sinceramente, não entendi quase metade do que ele falou. Mas
o sorriso dele quando eu disse que tinha que ir embora, e um sussurro que
consegui decifrar: “amanhã”... Amanhã, Sr Francisco? Talvez, eu tenho aula. Vou
tentar. Mas tenho prova. Mas vou tentar. Mas tem chovido, e não tenho carro,
sabe? O quê, o Sr sussurrou mais alguma coisa?
“Deus sabe o que faz”. Ele tinha dito isso no meio da
conversa. “Quando eu melhorar a gente vai conversar”. Essa frase foi difícil
entender, mas quando repeti ele confirmou que era isso mesmo. E uma das mais
ditas: “mas eu te entendo, eu te escuto”. Ele repetia quando eu dizia que, se
fosse ruim pra ele conversar daquele jeito, eu podia ir embora. Caramba, por
que fui repetir isso tanto? Ele me escutava... E por que agora essas frases ficam
passando pela minha cabeça?
Receptores do tipo alfa ou beta? Tô confundindo, o que a
dopamina tem a ver? Revisar, e lembrar de ligar pra confirmar a palestra da
Liga. E lembrar que um Sr de 90 anos quer conversar comigo quando melhorar do
problema (câncer?) que não o deixa falar. Ele nunca fumou. Falando nisso, a
nicotina age em receptores de acetilcolina, e eu podia passar lá pra vê-lo.
17h10, se eu correr ainda consigo estudar mais tarde. Ops, errei o quarto, é o
masculino, claro.
Aqui, a cama da esquerda, ainda sem placa. Um Sr e uma Sra
sentados à beira do leito, com os olhos marejados. Por quê...? Ai, meu Deus,
por favor, não. Por favor, por favor, por favor. E eu olho para a cama... Ali
está, o Sr Sem-Nome da Silva. Acordado, me vê e sorri. Eu digo: “oiê! Vim só
pra falar um oi mesmo, eu disse que talvez voltasse, né?”. Silêncio. Talvez ele
tenha sussurrado algo. “Bem, me desculpem, só passei rápido mesmo, fiquem à
vontade”. Que idiota, por que eu quis tanto vir aqui? Vou embora logo, tá
chovendo.
No ônibus, uma conversa com um amigo. Falamos sobre o clima,
relacionamentos, vida, morte, e o senhorzinho que não me sai da cabeça. “Às
vezes fazemos algo e não temos idéia de como aquilo vai afetar as outras pessoas.
Efeito Borboleta, sabe?”. Amigo, você também tem 90 anos? É isso. O Sr Borboleta
criou o tufão dentro de mim, com o simples bater das asas de sua não-voz. Quem
sabe amanhã eu não dê uma passada por lá e saia com uma leve brisa na alma?
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