Grupo de humanização hospitalar voltado para a 3ª idade, que atua no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Uma noite sem sono...


Há 3 anos atrás, quando entrei na faculdade, não fazia idéia do quanto minha vida, pensamentos e valores iriam mudar... E do quanto a doença e a morte iriam pesar sobre mim...

Ah, sim, no passado eu acreditava que iria me acostumar a ver doentes e mortes. Mas não: quanto mais a gente se envolve com uma criança doente, mais a gente lamenta pela doença dela; quanto mais a gente aprende sobre a doença daquele senhor, mais a gente percebe a gravidade do problema e se entristece pela morte sofrida que se aproxima dele...

Não se engane se eu não demonstrar sentimentos nesses casos: para mim o peso se tornou tão grande que mal consigo liberá-lo em um rosto triste, cabeça para baixo ou lágrimas... Acabo guardando tudo comigo, tentando dizer "preciso seguir em frente"... Mas dentro de mim, onde se escondem os sentimentos, há choro, grito, desespero; uma noite sem sono, perguntas do porquê das coisas do mundo... E esta noite está sendo mais uma dessas...

Seu nome era Francisco. Eu o conheci quando eu ainda usava a boina e fui fazer uma visita na pediatria a convite de uma amiga, para desenhar com os pacientes pequeninos. Nunca havia entrado em uma enfermaria do HC antes; foi um choque ver um menino carregando um suporte, no qual estava pendurado uma bolsa ligada a um canudo enfiado no pescoço! (hoje, é natural eu lidar com pacientes recebendo alimentação parenteral por acesso central). Conversei com Francisco, jogamos videogame e assistimos ao jogo do Corinthians... ele perguntou se eu iria voltar, e eu disse que sim... Hoje sei que nunca devo fazer promessas que não vou cumprir...

Todavia, reencontrei Francisco 2 anos depois, na aula de semiologia. Ele já estava mais velho e mais abatido, e agora eu auscultava seu abdome, e ouvia a professora dizer que Francisco apresentava síndrome do intestino curto e por isso necessitava de nutrição especial (e como ele não conseguia receber os cuidados em casa, acabou virando "morador" do HC). Seu sonho: conhecer os Estados Unidos. Sua realidade: uma vida morando no hospital, envolto em agulhas e dores. Uma infância privada de brincadeiras, futebol e escola, uma adolescência sem namoros e sem viagens... Hoje fiquei sabendo que ele partiu, partiu dos problemas desse mundo... O que Francisco poderia ter sido?

Às vezes procuro repouso em uma crença. Uma crença simplista de que passamos por dificuldades na vida porque precisamos disto para evoluir, e a cada vida que vivemos buscamos uma experiência diferente que nos acrescente de alguma forma. Contudo, sempre me vem a Dúvida: será que o mundo é justo? Revolto-me ao ver pessoas maldosas estarem sempre vencendo e rindo, enquanto uma criança paga as contas da dor, uma conta que não havia motivo de ser dela porque ela não fez por merecer. Tudo bem, o mundo é complexo, mas sou teimoso e continuarei a pensar sobre isso tudo... Meus amigos dizem que sou ateu, mas não acho: ao contrário, creio tanto em Deus que, em meus pensamentos, brigo com ele por essas injustiças. Talvez seja esta a minha forma de liberar minhas tristezas...

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