Há 3 anos atrás, quando entrei na faculdade, não fazia idéia
do quanto minha vida, pensamentos e valores iriam mudar... E do quanto a doença
e a morte iriam pesar sobre mim...
Ah, sim, no passado eu acreditava que iria me acostumar a
ver doentes e mortes. Mas não: quanto mais a gente se envolve com uma criança doente,
mais a gente lamenta pela doença dela; quanto mais a gente aprende sobre a
doença daquele senhor, mais a gente percebe a gravidade do problema e se
entristece pela morte sofrida que se aproxima dele...
Não se engane se eu não demonstrar sentimentos nesses casos:
para mim o peso se tornou tão grande que mal consigo liberá-lo em um rosto
triste, cabeça para baixo ou lágrimas... Acabo guardando tudo comigo, tentando dizer
"preciso seguir em frente"... Mas dentro de mim, onde se escondem os
sentimentos, há choro, grito, desespero; uma noite sem sono, perguntas do
porquê das coisas do mundo... E esta noite está sendo mais uma dessas...
Seu nome era Francisco. Eu o conheci quando eu ainda usava a
boina e fui fazer uma visita na pediatria a convite de uma amiga, para desenhar
com os pacientes pequeninos. Nunca havia entrado em uma enfermaria do HC antes;
foi um choque ver um menino carregando um suporte, no qual estava pendurado uma
bolsa ligada a um canudo enfiado no pescoço! (hoje, é natural eu lidar com pacientes
recebendo alimentação parenteral por acesso central). Conversei com Francisco, jogamos
videogame e assistimos ao jogo do Corinthians... ele perguntou se eu iria
voltar, e eu disse que sim... Hoje sei que nunca devo fazer promessas que não vou
cumprir...
Todavia, reencontrei Francisco 2 anos depois, na aula de
semiologia. Ele já estava mais velho e mais abatido, e agora eu auscultava seu
abdome, e ouvia a professora dizer que Francisco apresentava síndrome do
intestino curto e por isso necessitava de nutrição especial (e como ele não
conseguia receber os cuidados em casa, acabou virando "morador" do HC).
Seu sonho: conhecer os Estados Unidos. Sua realidade: uma vida morando no
hospital, envolto em agulhas e dores. Uma infância privada de brincadeiras,
futebol e escola, uma adolescência sem namoros e sem viagens... Hoje fiquei sabendo que ele partiu, partiu dos problemas desse mundo... O que Francisco
poderia ter sido?
Às vezes procuro repouso em uma crença. Uma crença simplista
de que passamos por dificuldades na vida porque precisamos disto para evoluir,
e a cada vida que vivemos buscamos uma experiência diferente que nos acrescente
de alguma forma. Contudo, sempre me vem a Dúvida: será que o mundo é justo?
Revolto-me ao ver pessoas maldosas estarem sempre vencendo e rindo, enquanto
uma criança paga as contas da dor, uma conta que não havia motivo de ser dela porque
ela não fez por merecer. Tudo bem, o mundo é complexo, mas sou teimoso e
continuarei a pensar sobre isso tudo... Meus amigos dizem que sou ateu, mas não
acho: ao contrário, creio tanto em Deus que, em meus pensamentos, brigo com ele
por essas injustiças. Talvez seja esta a minha forma de liberar minhas
tristezas...
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